As pessoas correm de um lado para o outro, frenéticas, feito formigas. Leonardo sente a ansiedade esfacelando seu estômago enquanto espera no aeroporto. A respiração encurtada e irregular ecoa em seus ouvidos, os olhos vidrados no imenso relógio, um painel digital marcando nove horas da noite. Os segundos se dilatam, prolongando a espera. Faltam trinta minutos para seu embarque, mas a sensação é de que o tempo se estica além do suportável.
O cenário ao seu redor é um turbilhão caótico de vozes entrecortadas, passos apressados e anúncios distorcidos. A aura de tensão permeia o ambiente, um palpável nevoeiro de incertezas. Sente-se imerso em um mar de desconhecidos, cada um com suas próprias histórias, preocupações e, no centro dessa tempestade humana, ele, um grão de poeira em um universo indiferente. Se afunda no assento, inquieto, e, com as mãos trêmulas, extrai uma caixa de remédios do bolso. Os dedos, galhos retorcidos, bailam em um tremor quase imperceptível quando abre o invólucro e engole dois comprimidos de uma vez. A amargura metálica lhe invade a boca, ressaltando a sensação de impotência e desamparo que o acompanha. É um ritual particular, a derradeira tentativa de subjugar o medo implacável que o assola cada vez que viaja de avião.
Negócios são negócios, reflete, mas as palavras são insuficientes para abrandar a turbulência em seu peito. A mente se converte em um labirinto de cenários catastróficos, nos quais as asas de metal que o transportam transformam-se em garras afiadas de um monstro e o céu num mar de tempestades de fogo. A reunião que se aproxima é crucial para a empresa, o destino da companhia repousa sobre seus ombros, e o peso dessa responsabilidade o oprime, ameaçando esmagá-lo. Sofrer de ansiedade é como estar em uma prensa lenta que, devagarinho, vai esmagando a alma.
Fecha os olhos, tentando silenciar os pensamentos tumultuados. Busca visualizar um amanhã mais sereno, um dia em que o sucesso e a estabilidade prevalecem, mas a ventania de insegurança persiste, envolvendo-o como um abraço sufocante. Enquanto a ansiedade continua a pulsar em suas veias, Leo se agarra à esperança de que encontrará forças para liderar e alcançar um desfecho favorável. Afinal, não é isso o que costumam dizer, que é nos momentos de crise que se revelam os líderes? Agora, mais do que nunca, precisa se transformar nesse líder, precisa ser capaz de inspirar confiança em sua equipe e levar a empresa ao sucesso desejado. Com essa convicção ressoando em seu íntimo, levanta-se e caminha em direção ao banheiro.
No silêncio do cômodo, o som do seu próprio coração pulsando ecoa nos ouvidos, uma batida descompassada que espelha sua agitação interior. Lava o rosto, deixando a água gelada escorrer entre os dedos. O frescor traz um alívio momentâneo para suas fatigadas terminações nervosas. Ergue os olhos para encarar o próprio reflexo no espelho e o que vê é assustadoramente familiar, uma face desgastada pelas pressões do cotidiano. As olheiras profundas denunciam noites mal dormidas, enquanto linhas de expressão e preocupação se entrelaçam como raízes de uma árvore torturada. Até mesmo seu cabelo está diferente, mais ralo, mais fraco. Está cansado, cansado demais. O reflexo no espelho é o seu fantasma e o seu fantasma é o reflexo da vida que leva. A perspectiva de suas tão almejadas férias parece distante e inatingível. A ideia de assumir o cargo de gerente, com suas responsabilidades avassaladoras, é como uma nuvem tempestuosa pairando sobre sua cabeça. O futuro é na verdade um enigma desconcertante, e cada escolha parece um passo em direção ao desconhecido. Sabe que se não estiver concentrado no que realmente importa, fica fácil se perder nas encruzilhadas de pensamentos e preocupações. Mas essa é a vida adulta, uma lista interminável de deveres e dilemas.
Leonardo volta ao portão de embarque, para o mesmo assento de antes, e seu olhar é atraído pela mulher à sua frente. Ela está imersa na leitura de um livro, cuja capa exibe o título O Último Voo, de Felipe Teodoro. O nome do autor lhe é familiar, mas o que mais chama sua atenção é uma pessoa estar lendo um livro com aquele título em um aeroporto. De repente, a voz de um funcionário invade as caixas de som, anunciando o início do embarque imediato para o voo Oceanic Airlines 815 com destino a Buenos Aires. Por favor, dirijam-se ao portão indicado no seu cartão de embarque. Obrigado. Leonardo se ergue, sentindo um nó se formar na garganta. É hora de enfrentar o medo, de desafiar o céu e as alturas que o apavoram desde criança. Com passos hesitantes, segue em direção à plataforma, o coração acelerado. O mundo ao seu redor parece desfocado.
Com os fones de ouvido encaixados, ele tenta encontrar refúgio na música, deixando as notas melódicas invadirem seus ouvidos enquanto a voz do comandante é abafada: senhores passageiros, a nossa previsão para chegada será às onze e meia da noite no Aeroparque Jorge Ne… e aos poucos o avião inicia sua jornada. A decolagem é tranquila, e quando Leonardo se dá conta, já está acima das nuvens. O avião cruza os céus e, sentindo o coração bater descompassadamente, o rapaz afunda na poltrona, apertando os braços da cadeira com força. Acredita que só assim poderia assumir o controle sobre si mesmo e aplacar a crise avassaladora que o domina. Lá de cima, pensa o quão bizarro é a situação de estar voando naquela velocidade em uma máquina como aquela. Sabe das estatísticas, mas, ainda assim, a ideia de estar ali não faz sentido nenhum.
Após alguns minutos, a harmonia do rock setentista é abruptamente interrompida por uma turbulência intensa. O avião começa a tremer, sacudindo os passageiros em seus assentos, fazendo ecoar murmúrios de medo nos corredores e os comentários são o que mais há de real ali. Leonardo agarra-se às laterais da poltrona, seus olhos arregalados de terror. A música, agora abafada pelo caos à sua volta, não consegue mais trazer conforto.
Quando a turbulência finalmente cessa, ele solta um suspiro de alívio e afrouxa o aperto nas laterais da poltrona. Uma aeromoça se aproxima, um sorriso nos lábios tensos. Posso lhe oferecer algo para beber, senhor? E ainda se recuperando do susto, ele responde inconsequentemente, uísque, por favor. A aeromoça serve a bebida. Leonardo segura o copo e bebe um gole. Fecha os olhos outra vez, desejando que tudo não passe de um pesadelo passageiro, mas, ao reabri-los, a cena diante de seus olhos desafia toda a lógica.
Está sozinho no avião.
Olha em volta, confuso, seus olhos esquadrinhando os assentos vazios. Uma sensação de pânico se insinua em sua mente, mas ele luta para mantê-la sob controle. Sabe que aquilo só pode ser um delírio, e essa convicção é reforçada quando olha pela janela, atraído pela visão nefasta além do vidro…
… cores sinfonia enlouquecedora a atração irresistível o magnetismo do desconhecido são paisagens que derretem desvelam-se texturas que não cabem nos olhos as matizes indizíveis pinceladas um quadro surreal em constante movimento criaturas inomináveis híbridas de humanidade e transcendência desafiam toda classificação ao flutuar além dos confins da compreensão um balé de horrores o colapso da harmonia a força inescrutável a violência ótica de um mundo deslumbrante enlouquecedora sinfonia cores …
O rapaz está no lugar errado, seus olhos não estão prontos. As sensações e perda e saudade se apoderam dele. Em um último relance, contempla ao longe a vegetação retorcida, a aura espectral. Suas folhas pontiagudas e escurecidas parecem vibrar em sincronia com os batimentos acelerados do seu coração. Uma onda de angústia percorre o corpo de Leonardo, seu estômago se revolta. Cada fibra de seu ser clama por fuga, enquanto a mente é envolvida por um véu tênue de desequilíbrio. A realidade se desfaz em fragmentos distorcidos. Sente o mundo desaparecendo aos poucos, consumido pela escuridão que emana do outro lado da realidade. O avião está caindo em espiral, e um grito escapa dos seus lábios e ele se agarra ao apoio de braço da poltrona, sentindo a adrenalina percorrer suas veias. A paisagem alienígena parece se aproximar rapidamente, o coração ameaça saltar do peito. Eu vou morrer, esse é o fim, é assim mesmo… Enquanto a aeronave mergulha em direção ao desconhecido, ele coloca a máscara de oxigênio, inalando profundamente o ar que lhe resta, mas mesmo com a máscara, a sensação de sufocamento persiste. No momento do impacto, uma escuridão avassaladora envolve Leonardo e o tempo parece se desvirtuar. Do escuro, brota o silêncio e do silêncio renasce a luz…
Quando abre os olhos, vê-se deitado novamente no assento do avião. A turbulência cessou e a aeromoça está ao seu lado outra vez, segurando seu braço, a preocupação estampada no rosto. Senhor, estamos chegando a Buenos Aires, diz ela com uma voz trêmula. Você está bem? Parece que teve um pesadelo. O que houve? Ele olha em volta, confuso, o avião cheio de passageiros, todos seguindo suas rotinas como se nada tivesse acontecido. Tenta se levantar, mas uma tontura o atinge. Ao lado, o copo vazio, com uma trinca atravessando toda a extensão do vidro.
Olhando pela janela, percebe que estão se aproximando de Buenos Aires, mas algo está definitivamente errado. O céu assume uma coloração sombria, enigmática: um horizonte púrpuro paira sobre a paisagem urbana. Leonardo volta sua atenção para a aeromoça, cujos gestos nervosos deixam claro a ansiedade que ela tenta disfarçar. Está tudo bem, não se preocupe, ele diz. A mulher dá as costas e atende o passageiro da fileira ao lado. Ao observá-la mais atentamente, Leonardo vê uma alteração perturbadora em sua pele: o que num primeiro momento parecia uma simples espinha na nuca, bem abaixo do coque de cabelo, se revela como algo a mais. Da pequena abertura insondável emerge o que lembra uma espécie de verme, larva. Sua textura é repulsiva, uma membrana rósea coberta por uma umidade que a faz brilhar de forma inquietante. Como se algo desconhecido buscasse romper a barreira que separa o corpo da mulher da realidade exterior. O verme ondula e se contorce por alguns segundos, dezenas de patinhas dançando no ar, e depois retorna para o buraco na nuca da aeromoça, quase como mágica. Ele se fecha e desaparece, dando lugar à pele lisa e hidratada. Leonardo esfrega os olhos. Eu preciso parar de beber.
À medida que a aeronave pousa, sente-se novamente fraco e desorientado. A voz do piloto ecoa pelos alto-falantes, anunciando que todos chegaram com segurança ao destino. Os passageiros começam a se erguer dos assentos, reunindo suas bagagens, se preparando para desembarcar e, ao observar as pessoas ao seu redor, o rapaz percebe que ninguém parece perturbado pelos eventos estranhos que presenciou. Com hesitação, levanta-se da poltrona e segue o fluxo rumo à saída do avião. Cada passo é uma luta contra sua própria confusão interna. O ar lá fora é pesado e o relógio gigante na entrada do desembarque marca seis horas da tarde, mas Leonardo não percebe. Repara apenas que as pessoas correm de um lado para o outro, frenéticas, feito formigas. É assim mesmo.