Depois de um tranco, o portão automático deslizou gritando no trilho, sendo preciso abri-lo manualmente devido à ausência de energia local. A rigidez era explicada pela inutilização do motor pelo período de um pouco mais de um ano, em vista do acontecimento bizarro que levou ao completo abandono daquele lugar, como se a região isolada naquele trecho serrano de São Paulo e o horário tarde da noite não fossem o bastante para causar arrepios.
Bati as palmas das mãos, tentando me livrar da sujeira grossa das barras de ferro, e voltei correndo para dentro do carro. Embiquei na passagem do portão dianteiro da sede da FARMNETIC e dirigi subindo pela estrada ladeada por um jardim tropical, cuja mata deveria ter sido mais domesticada e não tão bela antes de ficar a deus-dará. O ruído dos pneus era o único som exterior. O caminho se alargou, desembocando no pátio extenso que orlava o único prédio da propriedade. Estacionei próximo a ele e ao carro que já esperava ali com a passageira solitária. Do porta-luvas, apanhei minha arma de eletrochoque e a recolhi no bolso do blusão, eu não sabia o que me esperava a partir dali. Saí de meu veículo, a motorista do outro carro fez o mesmo e veio ao meu encontro.
— Sou a Brenda Lira — comecei dizendo à mulher que eu conhecia somente por foto. — Fui eu que entrei em contato.
— É um prazer conhecê-la pessoalmente, Brenda. — Ela me estendeu a mão. — Sou a Tânia Almeida.
— Grata pela oportunidade — devolvi o cumprimento. Como graduanda em jornalismo e estagiando na área, conseguir esse furo iria me proporcionar uma carreira. O caso da FARMNETIC aguçou a Brenda curiosa nata mais do que a Brenda futura jornalista. — Espero não ter feito você esperar muito.
— Uns vinte minutos. A Adriana, com quem você também trocou e-mails, veio me acompanhar. Ela entrou quase agora para testar as chaves e porque precisou usar o toalete.
— Estou ansiosa por uma conversa entre nós três.
— Vem, vamos entrando. — Tânia apertou o casaco na frente do peito e fez menção de se dirigir para o prédio, cuja porta haveria de estar em algum lugar ali em meio a tantas sombras.
Pedindo por um instante, voltei para o carro e acionei os faróis, assim provendo luz ao trecho a percorrer.
— Desculpe por não ter avisado sobre o portão. Também fui pega de surpresa — comentou Tânia. — O gerador já era.
Fizemos nosso caminho para o imóvel da FARMNETIC.
— O acontecido nunca foi ao ar, de fato — Tânia quebrou o silêncio.
— Mas qual a sua opinião sobre isso?
Ela hesitou. Olhando-a na espera da resposta, percebi seu queixo tensionar.
— Acredito que já está na hora de ele começar a ser comentado. — Tânia era uma mulher tensa, o que era compreensível.
Passamos das portas de vidro preto da fachada e adentramos o lugar sob o silêncio que a apreensão pelo desconhecido requer.
— Éramos uma equipe bem pequena e reclusa — falou Tânia, para quebrar a quietude. — Todos se desligaram da empresa no mesmo dia, quando tomamos ciência daquele absurdo. Juramos silêncio diante do caso. Eu vinha cumprindo, então…
— Eu agi completamente sozinha — disse com firmeza e ofereci um sorriso.
— Doutor Donácio preferia trabalhar de maneira ímpar, como foi o caso de seu último experimento. Agiu completamente atrás das cortinas, escondendo a pesquisa até dos funcionários mais próximos. Acontece que, há um ano, ele se trancou lá dentro. Bem… aqui era mais como o laboratório particular dele do que a própria casa, onde ele fazia seu diário virtual. Se lembra do vídeo, não?
Assenti com um meneio. O vídeo era, no mínimo, perturbador, transmitido dias antes da propriedade inteira ser lacrada. Começava com o próprio doutor Emiliano Donácio se apresentando, um renomado cientista pesquisador brasileiro na área da saúde, CEO e fundador da FARMNETIC, indústria farmacêutica brasileira em ascensão. Na transmissão ao vivo, ele explicava seu comprometimento com uma investida ambiciosa e pioneira. Começou compartilhando sua própria história de vida, marcada pela série de problemas de saúde que vinha enfrentando desde o nascimento — osteoporose severa, lúpus e insuficiência cardíaca só para citar algumas. Seu quadro clínico o privou de gozar uma vida plena, longe de baterias de exames e consultas rotineiras que reforçavam a ideia de que apenas um milagre poderia transformar sua condição.
Donácio procurou por meios alternativos, e a resposta que encontrou foi exibida em uma sequência de imagens e vídeos retratando uma alucinadora coleção de insetos vivos — sobretudo espécies de besouros, formigas, libélulas, vespas e louva-deus — perambulando umas sobre as outras, desafiando-se por espaço, analisando terreno, mastigando e triturando, sendo submetidas a coletas e testes laboratoriais.
“A resposta está na maior classe do reino animal. Pensem comigo, não há terreno que apresente obstáculo para esses pequenos bichos, eles andam sobre a água, escalam e ainda voam. Eles são sempre os vetores, jamais os contagiados. Eu me pergunto, como as habilidades dos insetos poderiam ser revertidas em prol da saúde humana?”, Donácio dividiu seu questionamento no vídeo compartilhado ao vivo. “Se pudéssemos nos fundir a esses animais… se conseguíssemos, ao menos, um terço das capacidades anatômicas deles, iriamos usufruir de sentidos aguçados, membros potentes, habilidades estendidas. Seríamos implacáveis.”
A seguir, o cientista afirmava publicamente que iria revolucionar a medicina do século XXI. Daí em diante, Donácio contou como a FARMNETIC vinha utilizando o material genético dos insetos como matéria-prima de comprimidos, até então reunindo apenas resultados bem-sucedidos entre as cobaias — seres humanos voluntários, saudáveis, que não sabiam do que se tratava a droga —, que vinham apresentando revigoramento surpreendente no sistema imunológico, tal como reversão de distúrbios visuais e promoção de estímulos e sentidos. Donácio se referiu a isso como um grande progresso, entretanto, prometia que o verdadeiro milagre ainda estava por vir. Ele cessou o compartilhamento de tela e encarou a câmera, como se pudesse olhar nos olhos de seus espectadores.
“Meu objetivo com esse experimento que vocês estão prestes a prestigiar, senhoras e senhores, é criar uma geração de humanos mais resistentes”, com essa afirmação, Donácio levou a live para o momento crucial. “Esse próximo passo da espécie humana, o qual estou impulsionando, me deixa tão entusiasmado que serei o primeiro a compor o novo panorama da humanidade.”
Após o discurso, ele se distanciou da câmera e passou a ser filmado de corpo inteiro. Ele se postou ao lado de uma bancada que sustentava um aquário no qual dezenas de espécies de insetos estavam confinadas. Donácio despiu o jaleco, revelando-se nu da cintura para cima e com ao menos dois cateteres injetados em cada braço, conectados na base do aquário por mangueiras finas de silicone, geralmente utilizadas para a passagem de soro.
Emiliano Donácio acionou um botão no controle encimado na bancada e ocupou a cadeira ao lado assim que a tampa de metal do aquário começou a descer. A tampa servia, nada mais, como uma compressora, esmagando os animais contra o fundo da caixa de vidro. O ar se encheu do coro de garrinhas arranhando o vidro e asas frenéticas se debatendo sem ter para onde fugir, tudo isso enquanto as mangueiras se inundavam por um líquido espesso de tonalidade marrom-musgo. O material resultante escorreu direto para as veias do homem, cujo organismo tratou de absorver. O orgulho de Emiliano, no entanto, durou míseros segundos. O rosto logo se distorceu de dor, e um berro primitivo e agonizado escapou dele. Estremecendo como se convulsionasse, arrancou as cânulas com violência e escorregou da cadeira. Ele rastejou até a câmera e a transmissão foi abruptamente cortada.
A live não foi salva no canal da FARMNETIC, mas alguns espectadores não perderam tempo e gravaram a tela, sendo os responsáveis pela repercussão do vídeo. Ninguém conseguiu contato com Donácio desde então, o caso esfriou e a comoção perdeu a importância de maneira tão abrupta que a dita calmaria só podia ter sido comprada.
Foi então que, durante uma tempestade, o gerador do prédio sofreu uma breve oscilação, provocando um bug de software no notebookdo doutor, fazendo com que a câmera transmitisse ao vivo por seis segundos e meio. Reproduzira o laboratório em absoluto silêncio, o cenário era o mesmo da live do anúncio de Emiliano; a única diferença, além da ausência do próprio Emiliano, era a presença de uma forma vultosa esbranquiçada, aparentando uma espécie de pacote, fixada no extremo da parede. O vídeo-fantasma não ficou salvo. O episódio aconteceu exatamente no dia em que eu pesquisava sobre o caso, pois queria um furo fascinante e excêntrico para completar meu trabalho da graduação. Dessa forma, tive a sorte ou o azar de ter sido a única usuária das visualizações. Eu consegui capturar a tela, mesmo assim, era preciso mais provas, as quais estavam dentro daquele laboratório. E era por isso que eu estava ali. Passei as últimas semanas coletando o endereço de e-mail dos ex-funcionários e encaminhei para eles o print da imagem bizarra anexado a um texto de intenção; apenas Tânia e Adriana me responderam. Eu não chantageei, não era dinheiro o que eu buscava, tudo o que eu queria era a oportunidade de investigar.
Agora, Tânia e eu nos orientávamos com o auxílio dos fachos das lanternas. O mistério que o escuro e o desconhecido arrastavam parecia prolongar o caminho do hallde entrada. Nos embrenhamos pelos corredores e fomos para os fundos.
— É aqui dentro — Tânia indicou com a lanterna uma porta dupla. — A porta está entreaberta, Adriana não deve ter se aguentado e veio bisbilhotar.
A porta era blindada e o trinco funcionava por leitura biométrica, mas ausência do gerador anulava esse obstáculo. Tânia expandiu a fresta com modéstia.
Eu adentrei o laboratório ao lado de Tânia. O espaço era mais vasto do que eu imaginava. O distante teto abobadado era perdido nas sombras. Um silêncio sobrenatural vagava ali pela escuridão, feito uma alma penada. Folhas de anotações soltas e papéis picados revestiam o piso. O notebook utilizado para a transmissão da live parecia ter sido lançado ao chão, e a tela de plasma exibia-se hostilmente danificada. Eu me abaixei junto a ele e testei o botão; para minha surpresa, ainda ligava.
— Esse aparelho não era pessoal. Era para projetos da empresa — Tânia explicou e me passou a senha, que nada mais era do que a data de idealização da FARMNETIC.
Eu digitei o código e a tela que surgiu foi o canal da empresa, exibindo seus vídeos arquivados e a opção de iniciar uma nova transmissão.
— Vou ligar para Adriana, avisar que nos encontre aqui ou nos espere lá fora. Fique à vontade. — Tânia sacou o celular e foi assumir posto no umbral.
Vasculhei pelos arquivos do notebook. Encontrei os resultados das cobaias posteriores à data da live, e eles eram, perturbadoramente, alarmantes. As fotos que acompanhavam os arquivos revelavam mutações horrendas, eram humanos insetoides. Algumas cobaias faleceram; as que sobreviveram ao processo foram sacrificadas para que o sigilo da pesquisa prosseguisse. Eu cuidei de fotografar cada documento.
Fui apoiar o notebookem uma mesa próxima à janela para conseguir trabalhar melhor, mas minha atenção foi desviada quando notei as cortinas carcomidas, sobrevivendo entre buracos tão grandes que muito em breve elas seriam inúteis em sua função.
— Há quanto tempo não entram aqui? — questionei por cima do ombro, com a curiosidade aguçada.
— Um ano e meio, eu presumo. Emiliano trancou o laboratório por dentro no dia da transmissão, e desde então permaneceu fora de qualquer contato. Quando a equipe limpou o prédio, o único lugar que não tivemos acesso foi este aqui. Sempre sem qualquer sinal de vida, acreditávamos que ele havia ido embora e procurado se isolar depois do incidente ao vivo.
E chamar por autoridades para certificar o possível falecimento de Emiliano era comprometer as pesquisas, resultando em processos e condenação para toda a equipe da FARMNETIC, por isso a pressa para abafar o caso, concluí com meu botões.
Lancei o facho da lanterna para o lado oposto. A cadeira jazia de qualquer jeito no chão, o jaleco era um amontoado perto dela. As sombras das mangueiras de condução despertavam pensamentos arrepiantes. A bancada que comportava o aquário parecia ter tido sua superfície varrida com arrojo. O aquário reduzira-se à armação de ferro e centenas de cacos. Extratos do fluido arrancado dos insetos matizavam essa parcela do laboratório. Eu coletei uma pequena amostra, pois, por incrível que parecesse, ainda se mostrava fresco, um líquido fino que, no foco da luz, se asseassemelhava a… sangue.
Continuei procurando por aquilo que eu mais ansiava. Iluminei o alto da parede oposta. O pacote continuava grudado ali, rente ao teto. Consistia em um embrulho de seda do tamanho assustador de um homem, com apenas duas diferenças da imagem que capturei. Agora estava aberto e vazio.
— Que droga! — Instintivamente dei um passo para trás e congelei ao provocar um estralo oco. Com o coração na garganta, abaixei a lanterna, o facho de luz chegou muito antes de minha visão.
Tratava-se de uma forma tão grande quanto um homem, era opaca e vazia, rígida e espessa, cuja coloração partia de um âmbar pálido. À primeira vista, não consegui identificar nada daquilo. Depois de correr a luz pelo volume disforme algumas vezes, comecei a identificar semelhanças. Minha ficha logo caiu.
— Tem um exoesqueleto aqui — gritei. — Anormalmente grande — emendei em meio a uma onda de pânico.
— Não entendi o que disse. Ah! Consegui sinal! — Tânia avisou da porta. A chamada entrou em espera.
— O que quer que esteja aqui dentro — falei com a garganta apertada —, está maior do que quando saiu de lá. — Apontei a lanterna para o alto, mirando o casulo.
— O que foi que você disse que tem aí? — Tânia indagou.
Um toque de celular irrompeu do silêncio, soando de trás da bancada. O som morreu assim que Tânia optou por encerrar a chamada. Estalos eclodiram na sequência, estendendo-se em estrídulos e no som de mastigação úmida.
Com o sangue tamborilando nos ouvidos, contornei o balcão de maneira sorrateira. Empunhei o celular e iniciei a filmagem. Joguei o facho de luz para baixo. Dois faróis responderam ao sinal da minha lanterna. Grandes globos oculares opacos estavam voltados para mim, e eu encarei de volta os olhos compostos de artrópodes.
A criatura estava de cócoras. A mistura medonha entre ser humano e inseto. O revestimento de quitina travava uma batalha por espaço com a epiderme. Saliva grossa misturada a sangue pingava das pinças que esticavam terrivelmente os lábios humanoides, elas batiam e tremiam em uma agitação de reconhecimento, os movimentos eram acompanhados pelo par de antenas que se projetava entre os cabelos escuros espetados. Logo abaixo, o corpo inerte de Adriana com o pescoço arrebentado, exibindo os músculos e nervos estourados.
Voltei a olhar para a monstruosidade. As asas se revelaram; quatro pranchas de membranas holográficas encorpadas e ramificadas por profusões de inervações. A criatura inclinou a cabeça deformada para um lado, transmitindo um aspecto inofensivo.
— Emiliano? Emiliano Donácio? — Eu mal acreditava, e esperava por uma resposta positiva ao mesmo tempo em que me esforçava para fazer a comparação do homem com aquela anomalia. — Consegue falar? Consegue me entender?
As pinças bateram enérgicas. A cabeça inclinou mais e produziu arrolhos. A monstruosidade colocou um braço para frente, como se fosse se deslocar com cautela. Havia mais do que quatro membros, pois cada flanco do corpo ganhara um apêndice articulado. As pernas humanas estavam torcidas e anatomicamente alteradas, atendendo à aparência de pernas saltadoras de insetos.
Escorreguei o olhar para a tela do celular, apenas para me certificar se a imagem estava bem enquadrada. A criatura aproveitou o segundo de desatenção para dar o bote. Com um guincho, avançou sacudindo as asas em um farfalhar potente, as pinças da mandíbula afastadas, prontas para agarrar.
Eu recuei por impulso, as mãos dormentes travadas na lanterna e celular.
Na porta, Tânia berrou apavorada. Ela deu um passo para dentro do laboratório, chamando por mim em um grito estrangulado pelo desespero.
Enfurecida com uma companhia a mais, a monstruosidade atacou Tânia com algo distorcido entre uma mão humana e uma garra raptorial, arremessando a mulher para o chão sob uma força espantosa. Sua atenção se voltou para mim. Enfiei a lanterna no bolso do blusão e a troquei pelo que tinha ali. O monstro saltou com ímpeto. Saquei minha arma de eletrochoque e a acionei contra qualquer parte do bicho que consegui alcançar. O ruído inusitado foi o que o afugentou, não a dor ou algo do tipo.
Desembestei para a saída. A criatura realizou um voo baixo e curto, como se fosse a primeira vez que testasse as asas e, por um triz, não aterrissa em mim. Eu desviei, me lançando cegamente para o lado esquerdo. Acabei me chocando contra a parede, a centímetros da porta, onde meu cotovelo pressionou para baixo uma alavanca que existia ali. Um rangido alto escorreu do teto. Poderia ser um gigante despertando ou um ser pior, contudo, se tratava de placas de metal se recolhendo para anunciar a claraboia. Imediatamente, o laboratório foi banhado pela luz noturna. O ser medonho ficou estático encarando o alto, completamente hipnotizado pelo brilho. Vi o insetoide escancarar a envergadura, não perdi tempo e me abriguei embaixo da escrivaninha. Ela alçou voo em direção à claraboia e a atravessou de uma vez, arrebentando as armações de metal e estourando a vidraça blindada. Fragmentos e poeira de vidro salpicaram o laboratório.
Assim, a criatura que se trouxe ao mundo, lançou-se nele. Perfurou o céu de encontro à Lua, mas era só questão de tempo até que encontrasse algo mais atrativo pelo caminho, afinal de contas, agora estava livre diante de um panorama.
Mesmo que dentro de poucos minutos o mundo fosse conhecer o insetoide, eu tinha conseguido o primeiro registro. Olhei para o celular, minha filmagem corria.
Saí debaixo da mesa, reparando somente naquele instante que eu tremia da cabeça aos pés. Afaguei minha calça jeans e olhei para o céu, a figura já não estava mais à vista, ao menos não dali.
Tânia me esperava ao lado da porta, mais tensa do que antes de entrar no prédio, os olhos arregalados pregados no rosto lívido.
— Você está bem? — perguntei, aliviada por vê-la de pé.
— Foi só um arranhão. — Ela mostrou o braço direito na penumbra. — Uma ardência misturada a um leve comichão. Nada grave.
Abandonamos o cenário pavoroso, sem nos importar em fechar as portas, não havia mais necessidade em lacrá-las.
Refizemos o caminho sem pressa. De volta ao pátio, encontrei meu carro destruído, com a distância entre o teto e o piso reduzida a míseros centímetros, as portas e vidros estourados e o motor terrivelmente dentado. Ter deixado os faróis acesos se mostrava uma de minhas piores ideias. Ao menos, a ameaça não estava mais nas redondezas. Devido à circunstância, aceitei de prontidão a oferta de carona de Tânia.
Entre uma conversa concisa e desajeitada ali e aqui, percorremos a estrada florestal deserta. A chegada à via expressa trouxe o momento de Tânia mudar a marcha. Foi então que reparei. O choque me anestesiou momentaneamente e os batimentos cardíacos parecendo socar meus tímpanos amorteceram meus ouvidos ao assunto que ela me contava. Da ferida no braço, despontavam pequenas placas cuticulares de quitina amalgamadas à carne.
Eu pisquei forte. Talvez fosse minha imaginação me pregando uma peça. Olhei para o rosto de Tânia e identifiquei mais placas do exoesqueleto irrompendo da linha do couro cabeludo, começando a dividir espaço com as gotículas de suor na testa.
Puxei o freio de mão. Tânia e eu sofremos com o solavanco da freada seca e inesperada.
— Tânia — a rouquidão em minha voz foi estranha até para mim —, precisamos buscar ajuda.
Agora era ela que parecia não me ouvir. Ela gemeu e seu rosto se contorceu em dor. Tânia passou a mão nos cabelos e sua testa franziu ao não reconhecer a textura, foi a vez de checar os braços com tarsos… o susto lhe arrancou um berro.
Tratava-se de uma infecção, não um processo de metamorfose natural, por mais adulterado que tivesse sido o caso de Emiliano, esse só podia ser o motivo da velocidade espantosa da mutação.
— Brenda! — O pavor espantou lágrimas para longe dos olhos de Tânia. — O quê…?! Eu não quero isso! Eu…
Seu olho direito pulsou e inchou, expandindo a caixa craniana e vazando da órbita, mas naquele instante ele deixara de ser um bulbo ocular humano, pois adquirira aspecto espelhado e milhares de omatídios. Sem intervalo, o esquerdo foi na sequência.
Liberando um grito gutural, eu fui para trás. Minha mão procurou a maçaneta.
Com um berro de rasgar a garganta, entre saliva e sangue, Tânia pareceu vomitar uma mandíbula de besouro agigantada, a qual lhe dilacerou a face de orelha a orelha. Levando a mão à boca, eu espremi as costas contra a porta, assistindo à pele de Tânia se esticar e rasgar à medida que antenas, garras, asas, pinças e carapaça surgiam. Eu puxei a maçaneta de uma vez e abandonei o carro.
Passei a aspirar o ar gelado e úmido da noite em uma corrida pelo acostamento da pista deserta, rumo ao mais longe dali. No fundo me perguntei se Tânia ainda se lembraria de quem eu era ou de qualquer coisa que a fazia ser Tânia Almeida.
Depois de uma sequência de baques e rangidos metálicos, que sugeriam golpes desferidos contra o interior do carro conforme a criatura lá dentro se sentia pressionada, o veículo atrás de mim veio a eclodir, liberando o segundo pesadelo da noite.
Espiei por cima do ombro e flagrei a insetoide empoleirada no que restou do carro, bramindo para as estrelas. Diferente de doutor Donácio, o abdômen desta era a maior parte do novo corpo, era espesso e terminava em um ferrão enorme, e ela produzia estalos arrepiantes a cada batida das pinças dentadas que precisaram perfurar as bochechas para se fazer existir.
Dei tudo de mim para apartar o passo, e minhas pernas vacilaram por tempo suficiente para que meu estômago afundasse com a ideia de perder ritmo e distância.
Eu ouvi o ar se agitar, meu sangue congelou instantaneamente; ao procurar pela posição da criatura, deparei com ela me sobrevoando. Em um impulso, eu me lancei ao chão e rolei para fora de sua mira. Ela aterrissou onde eu estivera um segundo antes, agitava os membros e pisoteava o asfalto com irritação.
Caída na pista, recorri novamente ao meu taser e o acionei uma vez na esperança de afugentar a monstruosidade, apesar disso tudo, o que consegui foi ser desesperada e inútil. Ela avançou lentamente, como se analisando ou saboreando a situação.
O ar se agitou de novo, dessa vez, contudo, não foram as asas de Tânia a fonte disso.
Eu procurei por ela, isto é, pela outra, e a avistei atravessando o nevoeiro. A metamorfose de Emiliano acabava de se juntar ao cenário.
A princípio, os artrópodes gigantes pareceram se desafiar, ao passo que demonstravam o quão impressionados estavam diante de alguém próximo de ser um semelhante.
Comecei a pensar que havia ficado na insignificância deles, no entanto, meu alívio não perdurou. Como se tivessem desistido da ideia de haver um alfa, a dupla fez menção de me atacar. O rugido de um avião ecoou no céu; o rastro de zumbidos dos motores atraiu a atenção de Tânia e Emiliano, não mais do que os faróis.
Com o interesse prisioneiro da nova atração, as asas foram erguidas e cuidaram de guiar os corpos híbridos ao encalço da aeronave berrante.
Não poderia fazer nada ali senão lamentar a atrocidade prestes a acometer os passageiros, portanto, refiz meu caminho.
A pé, a estrada até o prédio da FARMNETIC se revelava mais extensa e ainda mais tenebrosa. Tinha minhas crenças de que os insetoides não iriam me incomodar ali, pois Emiliano passou tempo suficiente trancado naquela dependência, sendo assim, furioso e voraz como se encontrava, não iria querer regressar ao cativeiro tão cedo, talvez nunca. Agarrando-me a esse pensamento, estava novamente no laboratório, no centro de toda a catástrofe. Uma vez lá dentro, reativei o notebook, a bateria restante era suficiente para a execução de meu plano. Abri a galeria do meu celular e deixei as provas capturadas de prontidão. Voltei para o notebooke cliquei em “iniciar uma transmissão ao vivo”, então me restou aguardar as pessoas do outro lado chegarem. Não demoraria para o número de espectadores dar um salto absurdo, pois, assim que os milhões de seguidores vissem que a FARMNETIC voltou dos mortos, não perderiam tempo em vir conferir.
Era hora de fazer um anúncio viral. O mundo precisava ser avisado da ameaça que já circulava.
A Era dos Artrópodes tinha começado.