Covilnovo21

O Fosso

Na pequena cidade em que eu nasci havia um fosso. Os mais velhos diziam que ele estava lá desde antes de a cidade ser fundada e que, desde o princípio, também estava lá uma escadaria circular de pedra que acompanhava a parede do fosso. Eles também contavam que ao longo dos anos diversas vezes alguns corajosos tentaram ver até onde a escadaria ia, porém, todos sem sucesso. O cansaço e a escuridão que tomavam conta, mais ao fundo, venciam qualquer um, e todos voltavam derrotados para a superfície.

Quando eu tinha uns 11 ou 12 anos, meu melhor amigo era um garoto chamado Tenório, que regulava a idade comigo. Nós costumávamos brincar pelos campos em torno da cidade, mas eu sempre tive muito medo de sequer chegar perto do fosso. A ideia de um buraco sem fim, cheio apenas de escuridão, me assustava muito. Ou pior, que depois de tanto descer e descer, ele chegasse a algum lugar, algum lugar ruim. Já o Tenório sempre foi bem mais corajoso que eu. Ele gostava de chegar perto do poço e ficar imaginando o que teria ao final daqueles degraus. O fosso causava um fascínio no Tenório, enquanto a mim, apenas pavor.

Certa vez, estávamos brincando correndo pelos campos e acabamos por chegar perto do fosso. Comecei a querer voltar mais para perto da cidade, mas Tenório insistia para que déssemos uma olhada para dentro do buraco. A ideia me causava calafrios, mas não queria ficar de covarde, então fomos até a borda.

— Uau! Juca, você já viu algo igual? Meus avós dizem que está aí desde antes dos pais deles nascerem!

— É muito fundo mesmo, Tenório. Bom, já olhamos, vamos voltar?

— O que você acha que tem lá embaixo? Aposto que são cavernas cheias de ouro! Ou então uma cidade escondida de anões! Com suas barbas robustas, machado e tudo!

— Acho que é só um buraco fundo com água no final mesmo, Tenório. Vamos, está começando a escurecer. Você sabe que meus pais vão ficar preocupados se eu não chegar antes do anoitecer.

— Está bem, está bem, Juca. Vamos lá…

A voz de Tenório mostrava seu desapontamento, e que aquele assunto não terminaria ali. Mais tarde, quando já era noite, ele jogou pedrinhas na minha janela. Ao abrir, para minha surpresa, estava sendo visitado por um Tenório de mochila nas costas e lampião na mão.

— Para que tudo isso, Tenório? É noite já, volte para cama. Eu preciso dormir.

— Ah, pare com isso, Juca. Vamos, venha! Vamos descobrir o que há lá embaixo! Eu trouxe uma luz, casacos e alguns sanduíches! Não se preocupe, voltamos antes de seus pais acordarem.

A última coisa na vida que eu gostaria de fazer era descer aqueles degraus, mas Tenório insistiu profundamente e disse que ele iria, nem que fosse sozinho. Mais que o fosso em si, me assustava ainda mais pensar em Tenório sozinho naquela escuridão e sem alguém para botar bom senso em sua cabeça. Desci e saí porta afora para acompanhá-lo.

Começamos a descer os degraus. A lua estava cheia e fornecia uma luz adicional, graças a Deus. Ao contrário do campo à noite, o interior do fosso não era frio. Também não era quente. Além disso, era assustadoramente silencioso lá dentro. Parecíamos estar descendo degraus em um lugar alheio ao nosso mundo. Depois de um bom tempo de descida, a luz da lua havia nos abandonado. Restava apenas a chama do lampião de Tenório. Seguimos um pouco sob seu brilho fraco, quando decidi parar.

— Tenório, já descemos o suficiente. É claro que ainda há muitos degraus para baixo. Se nem os adultos das gerações passadas conseguiram descer até o final, não seremos nós que conseguiremos. Vamos, é hora de voltar.

— Puxa, mas eu sinto que falta tão pouco…

—Tenório… não seja tolo. Vamos. Eu estou voltando.

— Está bem, Juca. Vou com você. Você vai precisar da luz do lampião para enxergar, pelo menos até a lua voltar a iluminar os degraus.

            No entanto, quando chegamos a uma parte em que apenas a luz do luar já era suficiente, ele parou.

            — O que houve, Tenório?

            — Nada. Só… pode ir, Juca, a partir daqui você já deve conseguir chegar em segurança ao topo. Eu vou descer um pouquinho mais. Acho que mais um pouco e alcanço o fundo! Está tudo bem, meu amigo. Sei que esse lugar te dá arrepios.

            — Você não pode estar falando sério!

            Mas Tenório estava irredutível. Eu já havia gastado toda minha coragem para chegar até ali. Relutante e preocupado, voltei para minha casa. Naquela noite, não consegui dormir.

            Você pode imaginar meu medo e desespero quando fiquei sabendo no dia seguinte que Tenório ainda não havia aparecido em casa. Nossos pais me interrogaram sobre seu paradeiro ou alguma pista. Por lealdade ao meu amigo e por medo de me julgarem como culpado por alguma razão, contei que não passou nada fora do normal até a hora que voltei para casa. Milagrosamente, eles acreditaram. Os dias seguintes foram de angústia e buscas, muitas buscas, mas ninguém encontrou nada. Alguns começaram a se questionar se ele tinha descido ou caído no fosso, mas a maioria o considerava esperto demais para que isso acontecesse.

            Assim se seguiu, a tristeza tomou conta da cidade por uns dias e pela vida toda dos pais de Tenório. Já para mim, creio que algo pior passou a ocorrer: uma mistura amarga de sentimentos tomava conta de mim quando, nas noites de ventania, eu podia escutar a voz de Tenório sussurrando junto ao uivo do vento.

            — Juca, acho que estou quase lá! — ele me diz. — Acho que estou vendo o fundo! Não deve faltar muito, meu amigo! — e coisas do gênero. Mas ele parece nunca chegar.

            Os anos foram se passando, e eu sempre podia ouvir Tenório à noite. Boas noites de sono se tornaram uma realidade distante. Passei a ser assombrado pela voz de Tenório, que continuava a descer as escadas do fosso. Até certa noite….

            Era uma noite fria de inverno. Eu já tinha meus 25 anos. Ventava muito, então meu espírito já se preparava para escutar Tenório dizendo que estava quase no fundo. Mas dessa vez, não foi isso que ele me disse. Para minha surpresa e terror, o que ele falou foi:

— Juca! Juca, venha! Eu cheguei! Você não vai acreditar no que estou vendo!

Desde esta noite, não ouvi mais qualquer palavra de Tenório, nem à noite, nem de dia. Acabei descobrindo que pior que seus sussurros no vento era o silêncio da noite na ausência deles.

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