Tudo começou como uma leve dor de cabeça tolerável, mas persistente. Chegou a considerar a possibilidade de estar precisando de óculos, e as coisas teriam ficado por isso mesmo se não tivesse passado mal no meio da rua, desmaiando. Inconsciente, foi levada às pressas para o hospital e, por sorte, acabou caindo nas mãos de Luísa, uma clínica-geral que estava em busca da sua especialização em neurologia.
A médica pediu uma tomografia craniana para descartar danos cerebrais, mas o que encontrou no exame foi ainda pior. Do outro lado da mesa, Núbia mexia nervosamente as mãos e suava frio, olhando para a porta de soslaio. Algo dentro dela gritava que era melhor sair pela porta e fingir que nada daquilo havia acontecido.
— Tem um verme alojado no seu cérebro.
— O quê? N-não… Isso é algum tipo de brincadeira?!
— Está aqui, veja por si mesma. Essa mancha escura é…
— Eu não quero ver isso!
As duas se olharam por alguns momentos e, suavemente, Luísa estendeu a mão sobre a mesa, pousando-a sobre o antebraço da outra mulher, que parecia arrasada. Seus olhos estavam fundos e escuros, cheios de lágrimas.
— No seu tempo — disse a doutora, passando a imagem do exame pela mesa branca.
Núbia chegou a pensar em se levantar e ir embora. Não queria ter de lidar com isso, especialmente na frente de uma estranha que nem sequer conhecia e que, com toda a certeza, já havia batido o martelo sobre quem ela era e como havia terminado naquela situação. No entanto, era tarde demais. O sentimento abstrato de que havia algo de errado tinha se concretizado, com direito a evidências e testemunhas.
— Olha… A sua condição é grave. Você precisa me deixar ajudar.
Por um momento, seus olhos se deitaram sobre a imagem do exame. Debaixo da luz fluorescente do consultório era mais fácil enxergar o contraste. Podia ver os contornos dele se sobrepondo à nuvem cinzenta de sua massa encefálica. Não conseguia capturar os detalhes, mas não podia negar que estava ali. Engoliu em seco, nauseada. O desespero subiu queimando pela sua garganta, fazendo sua cabeça rodar e a vista escurecer. Seus lábios se abriram, deixando escapar uma voz tão sufocada que mal podia ser ouvida.
— Tira.
— …O quê?
— Eu disse tira! — gritou Núbia. — Por favor, tira! Tira isso de mim, mas tira agora! Eu… Eu não posso viver assim… — E, então, sua voz, que veio com a força de um trovão, desapareceu entre os soluços, dissolvendo-se em um choro irrefreável.
Se pudesse, a médica pegaria seu bisturi e retiraria o parasita ali mesmo. No entanto, aquilo era perigoso demais. Aquele verme em particular era grande o bastante para causar danos sérios se tentassem uma remoção abrupta e, de toda forma, o protocolo médico para lidar com neurocisticercose era outro.
— Eu não posso fazer isso. Eu sei que a ideia de viver com algo assim dentro de você é terrível, mas precisamos ter cautela. Existe um remédio pra isso. Você vai ficar bem se tomá-lo todos os dias, na hora certa.
Soluçando, Núbia só conseguia pensar no parasita vivendo em seu crânio. Sua imaginação pintava um quadro bastante detalhado daquele verdadeiro monstro repulsivo e odioso. Devia ser pálido e esbranquiçado, pois vivia debaixo da sua pele, bem guardado do sol. Aos poucos, seu corpo retorcido ganhava contornos mais nítidos em seus pensamentos: pensava nele como um filete lustroso e mole, se contorcendo convulsivamente para caber nos vãos que escavava em sua cabeça. Desesperada, tentou cravar as unhas nas próprias têmporas, mas foi impedida antes que se ferisse.
— Ei, calma! Isso não vai te ajudar… Núbia, me escuta! — A voz da médica era calma, porém firme, e parecia exercer um certo poder sobre ela. — Você precisa fazer alguns exames. A enfermeira vai colher amostras de sangue e…
— Eu não posso esperar! Doutora, por favor… Por favor, me ajuda!
— O remédio vai matar o parasita — disse a médica, com autoridade. A firmeza em sua voz exercia um efeito calmante sobre Núbia, que tinha a sensação de que ela sabia o que estava fazendo. — É um processo desagradável, mas você vai ficar bem se fizer o tratamento direitinho… — Por um momento, Luísa hesitou: — Olha, isso não é fácil. Haverá momentos em que vai parecer que está piorando, mas você precisa saber que não está. Se tiver alguém para ajudá-la a passar por isso… Bom, seria melhor não ficar sozinha.
— Eu não tenho ninguém.
Luísa pegou um cartão e escreveu algo, antes de entregá-lo para Núbia.
— Não sei se isso é verdade, mas aqui está. Esse é o meu número e saiba que pode me ligar a qualquer momento. Depois de ver a enfermeira, passa na farmácia para pegar o seu remédio com essa receita aqui. Se cuida até nossa próxima consulta… Vamos manter contato, está bem?
***
Naquela noite, Núbia chegou em casa em um estado de espírito completamente diferente do qual se encontrava enquanto estava no hospital. É que o desespero extremo e o nojo que haviam lhe acometido atingiram o pico durante o caminho de volta. Em sua cabeça, pensava nas mais variadas formas de extrair aquela praga ela mesma, sem a ajuda de mais ninguém. Se não estivesse dentro de um ônibus, talvez tivesse colocado algum dos seus planos em prática, mas não queria que aqueles estranhos soubessem da sua condição. Além disso, havia crianças ali.
Mesmo assim, em sua mente deu plena vazão às fantasias violentas nas quais arrebentava a janela e usava os cacos de vidro para abrir um buraco em sua cabeça, até chegar ao verme e arrancá-lo com as próprias mãos. É claro que não sabia sua posição exata e dificilmente os estilhaços seriam fortes o suficiente para perfurar seus ossos. Era melhor bater o crânio contra a parede até rachá-lo ao meio.
Quando o devaneio atingia o seu fim inexorável, o horror e a repulsa retornavam com força total. Não queria aceitar a própria impotência. O ciclo se reiniciava, as lágrimas voltavam. Segurava o grito, tentava parecer normal. Pensava em tudo o que tinha vontade de executar, mas que não podia levar a cabo. No fim das contas, chegou à conclusão de que não havia nada a fazer além de esperar que o remédio fizesse efeito — com ele ali mesmo, enfurnado em seu crânio.
Eventualmente, a repetição dos mesmos ciclos mentais e a intensidade de suas emoções acabaram por exauri-la de tal modo que não sobrou nada além de uma profunda apatia. Entrou no ônibus muda e saiu calada, ignorando os olhares de pena e curiosidade e passou os próximos dias tão reclusa quanto possível. Queria esquecer o que havia descoberto e, diante dessa impossibilidade, se limitava a fingir que estava tudo bem.
Levantava de manhã, se forçava a tomar banho e a escovar os dentes, pois queria parecer limpa. Em sua cabeça, associava a presença do verme à falta de higiene pessoal e tinha medo de que, de alguma forma, seus colegas de trabalho pudessem ligar os pontos se não estivesse impecável. Trabalhava no piloto automático. Inventava uma desculpa quando alguém perguntava sobre sua aparência cansada.
Só tinha algum conforto quando colocava os pés para dentro de casa. Ali, não precisava fingir. Enrolada nas cobertas, deixava o tempo passar assistindo as comédias românticas mais ridículas que conseguisse encontrar. Não queria nada sério ou complicado: apenas a mesma trama velha e batida de sempre, que a transportava de volta para sua adolescência e a fazia acreditar na existência de um “felizes para sempre”, apesar da sua condição. Então, se tocava.
Não eram os peitorais malhados ou os braços fortes que a deixavam excitada. Eram os olhos ternos, afetuosos. Olhos de alguém que pudesse vê-la e desejá-la pelo que ela era, mesmo que não tivesse um corpo perfeito ou não fosse mais tão jovem quanto costumava ser. Fazia algum tempo desde que esteve em sua última relação, e os traumas que havia passado com seu ex tinham deixado certas cicatrizes que havia aprendido a esconder, mas que ainda doíam. Tudo bem, podia viver com a dor. Só não queria ter de aprender a viver com a solidão: o que queria era alguém que não a deixasse.
Olhando em retrospecto, nos últimos meses, se sentia mais cansada, mas menos sozinha. Fazia algum tempo que tinha aquela sensação de que havia alguém com ela aonde quer que fosse. Durante a noite, não conseguia dormir de jeito nenhum. Sentia fome, mas não conseguia comer e, quando comia, era de forma mecânica: comia apenas por comer, sem nem sentir o gosto da comida. Estava cada vez mais magra e mal se reconhecia no espelho pela manhã. Tinha voltado aos velhos vícios, abandonado todas as atividades às quais não era obrigada a ir e se afastado de todos os amigos e familiares para evitar perguntas.
Instintivamente, sabia que não estava bem, mas não queria ser julgada por isso e muito menos ser forçada a fazer algo a respeito. Era uma mulher estudada, que pagava as próprias contas. Dizia para si mesma que era livre para tomar as próprias decisões e para viver como bem entendesse. No entanto, na prática, não era uma questão de escolha. Falar com sua mãe a deixava ansiosa, pois não queria ser motivo de preocupação. Com Sebastião, seu irmão, era ainda pior. Ele costumava ser o seu confidente e a conhecia melhor do que ninguém. Era uma questão de tempo até que descobrisse que havia algo de errado com ela e, para evitar isso, precisava se manter distante.
Os dias foram se passando e o remédio amargo que Luísa havia receitado funcionava bem até demais. Desde que havia começado a tomá-lo, conseguia olhar para a própria vida com mais clareza e identificar todos os seus erros com mais precisão. Aos poucos, ficava mais fácil ligar os pontos. A resposta estava ali o tempo todo. O motivo pelo qual não se sentia mais sozinha era o fato de que havia, efetivamente, um verme vivendo em seu cérebro. Ele a mantinha sedada enquanto mastigava as estruturas neurológicas que a ajudavam a separar a realidade do delírio.
O problema era que a sua recém-adquirida consciência não lhe trazia conforto algum. Ela podia senti-lo morrer dentro dela, e os buracos que, outrora, ele preenchia. Núbia sabia que deveria odiá-lo por isso, mas só desejava preencher aquele vazio com alguma coisa. Qualquer coisa. Será que era possível amar um verme? É claro que algo do tipo parecia impossível, mas não era justamente a impossibilidade de um amor que tornava tudo tão bonito nos contos de fada que ouvia quando era criança?
A essa altura, achava que devia tê-los superado, mas a vontade de acreditar estava viva dentro dela. Além disso, qual era sua opção? A solidão? Um mundo cinza, frio e cínico onde ninguém prestava? Talvez a verdade fosse superestimada e eles — ela e o verme — pudessem ser como a Bela e a Fera. Ainda dava para voltar atrás. Tudo que precisava fazer era deixar que ele a devorasse aos poucos… De toda forma, achava que não tinha sobrado muito de si mesma e já não tinha muito mais o que perder.
Além disso, saber que isso era errado só tornava tudo mais romântico e excitante. Havia um motivo pelo qual Romeu e Julieta era a história de amor definitiva. Será que um parasita poderia amar seu hospedeiro? Certamente, o verme nunca a abandonaria, pois precisava dela. Ele a desejava, pois sem ela, não tinha um cérebro ou um estômago. Ela era o mundo dele e, sem Núbia, não podia viver. No fundo, sabia que aquilo não era amor. O que quer que aquele verme sentisse por ela, se é que sentia alguma coisa, devia ter outro nome, mas era parecido o suficiente. Talvez, pensava consigo mesma, ter neurocisticercose não fosse tão ruim, apesar do nome feio.
***
Luísa analisou atentamente os exames. Depois, ligou para o laboratório para confirmar se eles não haviam cometido nenhum erro. Havia, sem sombra de dúvidas, um parasita instalado no cérebro de Núbia: ela mesma havia visto a tomografia. No entanto, os hemogramas não apontavam para a presença de uma tênia, que era, até onde conseguia se lembrar, o único verme causador da neurocisticercose no Ocidente. Fez algumas ligações para especialistas que conheceu na faculdade, debruçou-se sobre os livros e buscou informações com seus professores. No entanto, não conseguia achar nada que se parecesse com o que havia aparecido na imagem. Estava lidando com o desconhecido.
A essa altura, o caso já havia se tornado a sua principal ocupação nas horas livres. Não conseguia pensar em outra coisa. Para ter certeza, seria necessário repetir os exames de sangue, mas havia mostrado o que tinha para um dos seus professores, em quem confiava muito, e ele havia concordado que não se parecia nada com uma tênia. Aquele verme de forma definitiva era o seu formato humanoide.
Segundo seu contato, o tratamento que havia prescrito deveria fazer efeito. Se Núbia tomasse o remédio, o parasita — fosse ele qual fosse — morreria em até três semanas, e então poderia removê-lo sem maiores problemas e estudá-lo para obter mais respostas. Até lá, precisava manter o contato com ela e fazer algumas perguntas para compreender melhor como e quando ela havia sido contaminada. Mesmo assim, não conseguia deixar de se preocupar com a paciente. Ao fim da segunda semana, julgou ter se passado tempo suficiente e decidiu telefonar para ela do hospital, mesmo sabendo que isso fugia um pouco dos trâmites burocráticos.
— Oi, Núbia. Aqui é a Dra. Luísa. Como estamos hoje?
— Oi. Bem.
— Bem? Olha, era esperado que você sentisse náusea, dor de cabeça…
— Estou tomando os remédios pra dor e pro estômago.
— Escuta, será que a gente pode marcar um dia pra conversar?
— Eu… Tenho andado ocupada.
— Certo… Talvez você possa voltar na semana que vem?
— Olha, eu preciso desligar. A gente vê isso mais pra frente…
— Claro! Desculpe o incômodo.
E, sem outras palavras, ela desligou. A tentativa de Núbia de tranquilizá-la só serviu para deixá-la ainda mais angustiada. Talvez estivesse imaginando coisas, mas Núbia parecia evasiva ao telefone. Na semana que se seguiu, tentou por diversas vezes marcar um retorno, mas a paciente nunca estava disponível, então sugeriu uma visita domiciliar. Infelizmente, sua boa vontade parecia exercer o efeito oposto ao desejado, pois a partir desse momento, Núbia passou a rejeitar todas as suas ligações. Algo não estava certo.
Pouco mais de três semanas após seu contato inicial com a paciente, Luísa terminou seu plantão e começou a revisar o caso de Núbia. Não conseguia apagar da própria mente a angústia e o pavor que havia visto estampado nos olhos daquela mulher que, definitivamente, precisava de ajuda. Abriu a ficha e anotou o endereço da jovem em sua agenda pessoal. Não devia se envolver tanto, mas quanto mais estudava o assunto, mais necessária parecia uma intervenção.
Luísa saiu do hospital, entrou em seu carro e inseriu o endereço que havia acabado de anotar no GPS, enquanto repassava em sua mente tudo o que havia aprendido sobre o quadro clínico de sua paciente. Em sua tentativa malsucedida de identificar o verme, acabou estudando o efeito de diversos parasitas no corpo humano, e havia ficado impressionada com o fato de os parasitas serem capazes de alterar o padrão de comportamento do hospedeiro, forçando-o a fazer coisas que ele jamais faria em outras circunstâncias. Não era incomum que as pessoas infectadas fizessem um enorme esforço para esconder os efeitos da doença, e era difícil precisar até que ponto esse comportamento era algo natural ou resultado do verme.
Finalmente, chegou ao seu destino. A mulher morava na periferia da cidade, em uma casa simples, porém bonita, que tinha um quintal amplo e era contornada por um muro baixo, cuja borda era protegida por cacos de vidro pontiagudos colados com cimento. No quintal, as folhas das árvores se acumulavam, causando à médica um mal-estar indefinido que podia ser ou não ser resultante do clima quente e abafado, que deixava o ar difícil de respirar. Tocou a campainha, mesmo achando que não seria atendida. No entanto, Núbia apareceu na porta e acenou na sua direção. Com um sorriso no rosto, ela abriu o cadeado do portão de ferro para que Luísa pudesse passar.
— Oi, doutora! Olha, eu queria mesmo falar com você — disse Núbia. — Vem, pode entrar.
Luísa passou pelo Monza preto abandonado no quintal, sem pensar muito a respeito. A recepção que teve fez com que questionasse seus instintos. Talvez estivesse apenas impressionada… No entanto, aquilo não durou muito, porque assim que entrou na casa e sentiu um cheiro bastante específico que conhecia bem, quis correr porta afora, mas quando se virou, deu de cara com Núbia, que olhava para ela com uma expressão entristecida. Instintivamente, a médica deu um passo para trás e depois mais outro, tomando o cuidado de se manter afastada da mulher que se aproximava de forma lenta, mas decidida.
— Eu agradeço por tudo o que fez por mim, doutora… Eu sei que você tentou ajudar.
— Você tomou o remédio, Núbia?
— Sim. Tomei. — Ela fez uma pausa, enquanto uma lágrima escorria do seu rosto.
Com o coração acelerado, a médica procurava por uma rota de fuga, mas a casa era pequena demais para isso. Foi então que viu a mancha vermelha que se espalhava pelo azulejo da cozinha em direção ao corredor de entrada, no qual se encontrava. Sangue.
— Núbia… Por favor. Me deixe ir embora.
— Eu queria muito poder fazer isso. Eu… Eu realmente nunca quis machucar ninguém, entende? Mas às vezes… Às vezes, o amor exige que a gente faça coisas impensáveis, não é mesmo?
— Por favor! N-não… Fica… Fica longe de mim!
Ignorando o choro e as súplicas, a dona da casa continuava a se aproximar. Seus dedos se abriam e se fechavam em espasmos, como sanguessugas pálidas e magras que ansiavam por uma refeição. Num ato de desespero, Luísa avançou sobre Núbia e tentou chegar até a porta passando por cima dela, mas a mulher apenas se abaixou, atingindo seu abdômen com o ombro e jogando-a no chão. A nuca da médica bateu com força no piso frio, e a força do impacto atirou-a para a inconsciência.
***
Quando Luísa acordou, estava na cozinha. Olhou para o lado e, para o seu mais completo terror, a primeira coisa que viu foi o cadáver de um homem com o rosto inclinado para o lado. Ele estava amarrado e amordaçado, assim como ela. Da cadeira onde estava, podia ver seu ombro dilacerado. Havia um talho irregular que ia da base do pescoço até o final do abdômen, de onde suas vísceras despedaçadas pendiam num emaranhado escarlate. O corpo estava coberto de sangue velho, escuro. Numa súbita inspiração, a médica percebeu a semelhança entre os traços dele e de sua paciente, e um pensamento terrível lhe ocorreu.
Repentinamente sentiu as mãos fortes de Núbia desatando o lençol que a prendia, puxando-a com força e atirando-lhe sobre a mesa. Com uma faca entre os dentes, ela a encarava com um olhar que era ao mesmo tempo triste e lascivo. Sua cabeça doía muito e seus músculos ainda não haviam recuperado a força. Reagir era inútil, mas com a pouca força que tinha, tentava segurar seus braços, cravando a unha nos braços da paciente, que estavam cobertos por feridas.
— Núbia, por favor… I-isso… Isso não é você. Você não é assim. O parasita… Ele… Ele tá mexendo com a sua cabeça.
Num movimento rápido, a mulher rodou a faca na mão e a golpeou com o cabo, jogando sua cabeça para o lado. Luísa tossiu, cuspindo sangue.
— Não chama ele assim! — E a fúria logo deu lugar a um choro compulsivo, enquanto sua voz diminuía e tremulava — Por favor. Ele… Ele não é um parasita.
— Esse… Quem é esse homem?
— Isso… Isso não interessa para você.
— Ele é… da sua família, não é?!
— Foi um acidente! — Ela gritou, enquanto lágrimas corriam por seu rosto. — Eu não queria machucar o Sebastião, doutora, eu juro que não queria! Eu só queria ser feliz!
— O que você fez?!
— E-ele é meu irmão. O Sebastião apareceu aqui e… Eu acabei me abrindo com ele. Eu tava com tanto medo! E-eu… Eu queria que ele entendesse como eu me sinto, mas… Mas ele queria que eu voltasse a tomar o remédio, mesmo sabendo como fazia eu me sentir sozinha! — A última palavra desapareceu em um gemido longo e soluçante. Em choque, Luísa apenas olhou para a outra mulher sem saber como se sentir.
— O que… Você fez?
— E-eu… Eu expliquei tudo pra ele. Sobre o que a gente conversou e como eu fiquei aqui, sozinha e miserável… como eu não aguentava mais procurar alguma coisa pra tapar os buracos. Também expliquei que havia decidido ficar com ele mesmo que doesse. Tentei fazer meu irmão me prometer que não ia contar para ninguém, mas ele se levantou e… E eu não tive outra opção!
— Núbia…
— Foi um acidente! Eu o segurei pelo braço e puxei e eu ouvi os ossos dele quebrando na hora! Ele caiu no chão e olhou para mim aterrorizado e… Eu soube, doutora, eu soube na hora que ele nunca ia me perdoar. E se eu o deixasse ir embora, ele ia contar para todo mundo sobre… Sobre o meu amor e… E daí, iam tirá-lo de mim. E eu ia ficar ainda mais sozinha, porque não ia ter nem ele e nem a minha família. Minha mãe e o Sebastião… Eles não iam me perdoar depois de tudo que aconteceu e das coisas que eu fiz. — As lágrimas corriam pelo rosto de Núbia, e a mão que segurava a faca acima do rosto de Luísa tremia muito. A médica pensou em tomar a arma, mas hesitou. Precisava agir no momento preciso ou morreria ali mesmo. — M-mas… Isso é um pouco romântico, não é?
E um sorriso triste, que combinava com seu choro baixo, contínuo, brotou em seus lábios enquanto ela confessava baixinho como uma adolescente falando com a melhor amiga.
— Nem Deus acredita nas coisas que a gente faz por amor…
— Isso não é amor. V-
Núbia engoliu em seco. O choque havia feito com que seu choro cessasse e, no fundo, ela sabia que o que a médica havia dito era verdade: aquilo não era e nunca poderia ser chamado de amor. Por isso, não foi capaz de suportar o peso daquelas palavras. Com a lâmina da faca, cortou a traqueia de Luísa para que não falasse mais e, assim, silenciou-a de uma vez por todas. O sangue jorrou e a voz da médica se diluiu em soluços agonizantes, enquanto o líquido quente escorria por sua pele. Meu Deus, como precisava daquilo!
Levou a boca até a ferida e saciou sua sede. Quanto mais bebia, melhor conseguia sentir a presença do verme em seu cérebro. Excitado pela refeição, ele tremia e pulsava, preenchendo seu corpo com ondas de prazer. Não havia razão para se sentir mal e, por mais que se sentisse culpada, não conseguia ver uma forma de voltar atrás e muito menos imaginar uma vida sem ele. Havia ido longe demais, machucado muita gente. Agora, precisava se conformar com aquela caricatura grotesca de amor, pois acreditava que ninguém jamais seria capaz de amar o monstro no qual havia se convertido.
Depois que terminou de beber, começou a comer. E quanto mais nojo sentia de si mesma e mais hedionda era a forma como saciava seu apetite doente, mais tentava se convencer de que a relação entre parasita e hospedeiro era legítima e que neurocisticercose era só outro nome para um amor incondicional, do tipo pelo qual se mata e se morre todos os dias, igual ao de Romeu e Julieta e dos mais belos contos de fada. Precisava que fosse amor, pois de que outra forma poderia justificar para si mesma o que tinha feito? E, ao se agarrar nessa ideia, se amarrava cada vez mais na armadilha do parasita que, ao mesmo tempo, se banqueteava em seu cérebro delirante.
Em um frenesi canibal, o verme cobria os seus rastros enquanto comia o que tinha sobrado de Núbia: primeiro, comeu suas relações. Depois, sua dignidade e autoestima. Para a sobremesa, deixou sua identidade. Ela já não era mais do que uma ferramenta para alimentá-lo, uma máscara de carne para esconder sua verdadeira natureza do resto do mundo e um túmulo profundo no qual iria sepultar o segredo sórdido de sua existência. Tinha cometido um erro, mas em pouco tempo estaria seguro novamente no anonimato. O telefone de Núbia tremeu sobre a bancada, anunciando uma ligação. O nome de sua mãe brilhou em vermelho debaixo do sangue que havia sido derramado sobre a tela e, segurando o gemido, a hospedeira estendeu a mão para o aparelho.
— Alô?
— Oi, filha… Escuta, seu irmão chegou a passar aí? Ele disse que queria te ver e depois não consegui mais falar com ele.
— Não, mas… Você não quer vir jantar hoje à noite? — Sua voz soava trêmula. — Eu quero te apresentar meu namorado.
— Nossa, filha! Nem sabia que você estava saindo com alguém… É sério?
— É sim, mãe. Eu acho que o amo!