Cancao

A canção das profundezas

Nas águas do Canal São Gonçalo, o barco pesqueiro a diesel era conduzido com maestria pelo senhor Valmir. Ele explicava cada parte do trajeto para a passageira de longos cabelos pretos como um verdadeiro guia turístico. Primeiro passaram por uma grande curva conhecida como Volta do Tigre. Depois veio a Sanga da Adutora e, mais adiante, as três ilhas: Ilha das Moças, Ilha Pequena e a Ilha Grande, também conhecida como Ilha das Cobras. A mulher ouvia com atenção os relatos de seu Valmir, enquanto seus olhos cor de avelã perscrutavam cada detalhe da bonita paisagem, que exalava um misto de hedonismo bucólico e atmosfera sufocante.
Depois da longa viagem, aportaram na margem da colônia de pescadores de Santa Isabel do Sul, distrito de Arroio Grande, interior do Rio Grande do Sul. A jovem saltou do barco na água rasa e caminhou em direção ao grupo de moradores que observava um corpo estendido na areia. O detetive Fábio, da Polícia Civil de Arroio Grande veio a seu encontro.
— Alma Sanchez! Prazer em revê-la!
— Detetive Fábio – disse ela, apertando a mão do policial, com seu charme austero, natural.
— A frequência de casos esquisitos tá aumentando. O pessoal da Civil falou até em criar um fundo específico só pra pagar teus serviços. Vai acabar entrando pra polícia.
— Gosto do meu Escritório de Parapsicologia, detetive. Quando necessário, faço essas parcerias. É o suficiente. – Ambos caminharam em direção ao corpo inerte.
— Um casal de idosos da vila, os Nunes, têm um quarto vago. Cobraram uma diária quase simbólica, com alimentação inclusa. Já consegui hospedagem pra ti lá, pelo tempo que for necessário. Gente muito simples e humilde.
— Ótimo.
— E teu pagamento, já foi feito? Chegou a conferir na conta?
— Sim, tudo certo.
— Por que vieste de barco? De Pelotas pra cá leva cerca de uma hora e meia por terra. De barco dá umas cinco horas de viagem.
— Pra sentir. Captar vibrações, sentir a energia dessas águas. E possíveis distúrbios.
— E captou? Sentiu algo diferente?
Alma não respondeu.
— Já é o quinto pescador morto em circunstâncias parecidas. – Fábio apontou com o queixo para o cadáver, cujos olhos se encontravam arregalados, com as íris voltadas para cima. — Adoniran Bastos, 67 anos, exímio nadador. Morte por afogamento.
— Mesma coisa que os casos anteriores?
— Ahãm. Desde ontem falava para familiares e amigos sobre um “chamado das águas”. Dizia que tinha uma voz na cabeça, um “canto de sereia”.


Dois dias depois, lanternas e lampiões brilhavam fantasmagóricos na bruma noturna à beira do Canal São Gonçalo. Alma saiu de seu quarto enquanto vestia um casaco e viu o senhor e a senhora Nunes olhando pela janela da cozinha, que dava de frente para a água. Os três saíram ao encontro dos moradores da vila para saber o motivo do burburinho, embora já desconfiassem de mau presságio.
— Encontrei, ajudem aqui! – Alguém gritou do barco que se aproximava da margem.
Trouxeram o corpo inerte de dona Carmem, 59 anos. Após uma massagem cardíaca potente e muita água expelida pela boca, a mulher voltou a si.
— Graças a Deus! —Exclamou uma moradora da vila de Santa Isabel.
Com uma lanterna clínica, Alma aproximou-se e examinou a mulher. Pediu que amigas lhe dessem um banho quente. Mais tarde, informou o detetive Fábio pelo celular.
— Os pescadores que recolheram dona Carmem disseram que quando a avistaram na água parecia hipnotizada. Com os braços abertos, falava em “mãe das águas” e gritava que “estava pronta para ir”. Sorte não ter morrido. Além da desorientação espaço-temporal, apresentava tremores, taquicardia e dilatação das pupilas. Reações semelhantes aos efeitos de algumas substâncias psicotrópicas.
— Está sugerindo que dona Carmem poderia estar drogada?
— Parecia. Fizeram exame toxicológico nos cadáveres anteriores?
— Não. Os laudos das autópsias foram simplificados como “afogamento”.
— Precisamos de análise toxicológica de dona Carmem.


Cinco dias se passaram. O exame toxicológico confirmara a presença de um poderoso alcaloide de propriedades alucinógenas, a mescalina, no organismo de dona Carmem. A Patram, o Ibama e ONGs ambientalistas identificaram os focos de maior intoxicação do alucinógeno nas águas do São Gonçalo. Fora localizado um barco de grande porte naufragado contendo carga da droga. Mergulhadores retiraram o que restava do produto e iniciou-se o processo de descontaminação das águas do Canal e avaliação dos danos à fauna e à flora aquáticas da região. As autoridades ainda investigavam o caso à procura dos responsáveis.
— A intoxicação explica as alucinações e as mortes por afogamento – afirmou Fábio. — Mas por que todas as vítimas disseram ter visto uma sereia? Quero dizer, se elas foram afetadas pela mescalina, em maior ou menor grau, é normal que tenham sido acometidas por alucinações, mas não faz sentido todo mundo ter entrado na mesma viagem psicodélica, ou seja lá o que for.
— A mescalina – disse Alma – é uma droga sintética feita a partir do peiote, um cacto nativo do México e do sudoeste dos Estados Unidos. Lá, o peiote é considerado planta sagrada para os índios Yaqui. Nos seus rituais, todos que consomem a substância relatam vislumbrar a mesma figura, um Elemental de forma humanoide, espécie de “entidade” que supostamente “habita” o vegetal.
— Tá me dizendo que as vítimas daqui entraram numa viagem coletiva?
— Não, só estou ponderando sobre o assunto. No caso dos nativos Yaqui isso faz todo o sentido, pois compartilham da mesma cultura, do mesmo sistema de crenças. Esse imaginário compartilhado compõe o que Jung denominou como “inconsciente coletivo”, uma poderosa membrana de força psíquica produto da crença de muitas pessoas em determinados mitos. Mas não faz sentido estes pescadores terem experiências alucinógenas em comum envolvendo uma sereia. Caso se tratasse de uma comunidade, tribo ou cultura específica que idolatrasse alguma divindade pagã das águas seria plausível. Mas, obviamente, não é o caso.
— Pois é! Mas, por outro lado, é difícil uma região de pesca não ter histórias sobre sereias, botos ou alguma criatura meio humana, meio peixe. Essas coisas.
— Sim, verdade. É um arquétipo universal, símbolo de fertilidade, sensualidade. E também de perigo. Mas não creio que isso seja o suficiente para uma alucinação coletiva. – Alma fez uma pausa, fechou os olhos e respirou profundamente. — Lamento detetive, estou me sentindo muito cansada. Com licença.
Tirou as sandálias e rumou para a casa dos Nunes.


Após cinco horas de um sono atribulado, Alma Sanchez acordou inquieta, no meio da madrugada. Fez um café e resolveu digitar mais uma parte de seu relatório no notebook:

Três são os questionamentos fundamentais, dos quais derivam os outros:
Teriam sido as visões e o canto fruto de uma paranoia coletiva potencializada pela mescalina?
Seria possível sustentar a hipótese de não se tratar de uma ilusão e de a criatura existir de fato?
Seria possível que o ser das águas seja parte ilusão/parte realidade?

Na hipótese 1, poderia realmente a ingestão involuntária de mescalina por várias pessoas proporcionar liberação energética potente o suficiente a ponto de compartilharem todos da mesma membrana de ilusão?
Quanto à alternativa 2, não há provas palpáveis que corroborem a possibilidade de existência da sereia. Apenas relatos das vítimas e testemunhas drogadas involuntariamente.
A terceira opção traz uma complexidade quântica que exige pesquisa de referencial teórico não ortodoxo, a partir de

Nesse ponto houve queda de luz e Alma parou de digitar. Acendeu o lampião que havia na cozinha e, através da janela, testemunhou a fúria das ondas revoltas e a ventania que sacolejava as árvores em espasmos abruptos, uivando como numa sinfonia desesperada. Um calafrio subiu por suas costas até a nuca. Seu coração acelerou e seus pensamentos se tornaram confusos. Deixou o lampião sobre a mesa e saiu.
Vestindo apenas uma longa camisola branca, que contrastava com seus cabelos pretos esvoaçantes, Alma caminhava como uma sonâmbula, a passos lentos na areia, em direção ao Canal. Quando a água já lhe batia na altura do peito, viu erguer-se das águas uma enorme cabeça de aparência cuneiforme. Em suas laterais se destacavam, como dois gomos, os perturbadores olhos escuros. Daquela cabeça grotesca, escorriam espécies de cabelos cor de musgo, lodosos, num emaranhado de algas, fibras e minúsculas plantas submarinas. Em silencioso êxtase, Alma olhava fixamente para a criatura que, lentamente, revelava sua forma na superfície. Tinha duas vezes a altura de um ser humano e seu corpo era uma carapaça de aparência fossilizada, coberta por escamas e líquens. Os seios assemelhavam-se a constituições ósseas pontudas. Nas costas, protuberâncias nodosas remetiam à configuração de um imenso cavalo-marinho. Agitou as ondas com sua grande cauda de peixe e abriu a boca, que era de uma horizontalidade horrenda. De imediato, um som atingiu a mente de Alma. Era um canto intraduzível, um lamento ancestral de um lirismo mântrico que evocava saudade, beleza, encanto, melancolia e morte. Alma admirava a criatura, seduzida, hipnotizada, sem reação aparente. Os tons e as dimensões da realidade lhe pareciam diferentes. O céu noturno assumira um tom arroxeado e a abóbada celeste parecia ao alcance das suas mãos. Numa tentativa de resistência, Alma conseguiu fechar os olhos e buscar algum suporte em si mesma, refugiar-se daquele canto sinistro em alguma paisagem de sua própria mente. Sentiu sua cabeça ir para trás, como um coice. Outro coice. Teve um apagão e logo voltou a si. Em meio ao cântico obscuro, conseguiu distinguir vozes familiares. Um pescador a puxara pelos cabelos, das águas profundas para dentro do bote. Havia pessoas à sua volta. Ela tentou dizer algo, mas desmaiou.
Quando desceu na margem, foi acolhida com carinho pelos moradores. Dona Vera Nunes a cobriu com um roupão de banho e enxugou seu rosto. Ouviu-se novamente o canto assombroso, de aguda melancolia e beleza. E, ao voltar-se para as ondas escuras, viu a criatura mais uma vez. Todos viram. E todos ali ficaram, em silêncio absorto, enquanto a horrenda figura, vagarosamente, voltava às profundezas aquáticas, encarando-os por momentos que pareciam conter a própria eternidade.


Alheias aos desmandos humanos, gaivotas faziam seu estardalhaço habitual, enquanto capivaras banhavam-se à distância no alvorecer de mais um dia. Na margem do Canal São Gonçalo, os primeiros raios do sol tingiram as areias da praia com as sombras dos moradores da vila. De mãos dadas, eles formavam um enorme semicírculo. No centro, se encontrava Alma, vestindo seu manto de couro cru batido adornado com escrituras de aspecto rúnico. Sorvendo o ar da manhã, de frente para o Canal, ela proferiu:
— Uns perderam filhos, outros perderam pais. Eu mesma quase morri há dois dias. Vidas foram sugadas por motivos que estão além da nossa compreensão, mas que nos levaram a refletir sobre o modo como temos vivido. Em sinal de respeito, oferecemos estes fragmentos de nossas vidas, objetos de importância sentimental para, assim, demonstrarmos reverência a estas águas que são fonte de nosso sustento, nossa cultura. Que seja aceito de bom grado.
Em seguida, alguns moradores colocaram um grande saco dentro de um pequeno barco de madeira. Todos aguardaram em silêncio enquanto a embarcação, com dois pescadores, se afastava, levando o saco de linho com os objetos coletados. O primeiro dente de leite de um filho. A relíquia que um dia fora de um avô. Uma carta de amor da juventude. Um candelabro que passara por quatro gerações. Um brinquedo da infância distante. O anel de prata de uma imigrante cujos ossos descansam há mais de um século. E tantos outros artefatos cujas histórias reverberam através do tempo. Seguindo as orientações de Alma, cada habitante de Santa Isabel doou pelo menos um objeto pessoal até formarem um pequeno relicário, um tesouro coletivo de inestimável valor afetivo. Longe o suficiente da margem, um homem e uma mulher, pescadores, despejaram o conteúdo do saco nas águas do Canal São Gonçalo.


Três dias depois, o clima na colônia mostrava-se visivelmente colaborativo. Os moradores haviam retomado as atividades de sua associação, desativada havia quinze anos. Reuniões seriam marcadas para futuros projetos, incluindo a criação de uma equipe composta pelos jovens para a divulgação das atividades locais nas redes sociais.
À margem do São Gonçalo, Alma esperava pelo seu Valmir. Carregava muitas sacolas pois recebera vários presentes dos moradores quando se despedira. Bolinhos de peixe, camarão, desenhos das crianças e até a miniatura de um barco feita por um artesão local.
— Já temos uma pista dos traficantes de mescalina. –Disse o detetive Fábio, parado ao lado de Alma. — Chegaste a alguma conclusão?
— Acredito que as mortes vão parar. –Disse Alma, contemplando o brilho do sol na água.
— Não foi o que perguntei. A sereia. Ela era uma alucinação, correto? Devido à intoxicação, houve surto de ilusão coletiva nestas pessoas. Já ouvi falar de coisas assim. Não foi isso?
— Me parece que já tens tuas próprias respostas.
— Quero saber o que pensas a respeito do que aconteceu aqui.
— Fábio – Alma olhou para ele – fiz o exame toxicológico depois de ter contato visual com a criatura, lembra? Não havia mescalina em meu corpo.
— Podes ter te influenciado pela loucura das outras pessoas.
— Acredito que houve alucinações por causa da intoxicação. Mas também acredito que uma força desconhecida se manifestou. Em que medida uma coisa gerou a outra é algo que não tenho condições de responder.
— Olha, eu sou prático. Comigo é oito ou oitenta. Não tem meio termo.
— No teu mundo talvez não. Mas há outros mundos e dimensões.
— E esses outros mundos existem de fato ou estão na nossa cabeça?
— Os mitos se alimentam de nós tanto quanto nos alimentamos deles.
— Então tu achas que era uma sereia mesmo? É isso?
Alma sentiu a brisa gostosa acariciar seu rosto enquanto seus olhos cor de avelã observavam a lida dos pescadores. Só então, falou:
— Acredito que uma força se manifestou aqui. Uma força da Natureza. Nem boa, nem má. Uma força. Cabe a nós darmos um sentido a essa manifestação.
Ouviu-se ao longe o motor do barco do seu Valmir.
— Resolveste ir mesmo de barco! Não tens medo que aconteça de novo?
— Não. Não tenho.


A embarcação deslizava sem pressa pelo Canal São Gonçalo. Sob um grande chapéu de palha presenteado por uma moradora da vila, Alma contemplava a beleza daquela paisagem natural, com o olhar na superfície das águas. Foi então que, em sintonia com a dança sedutora das ondas, vagarosamente se ergueu ao lado do barco, parte de um grande dorso, cujas escamas, momentaneamente adornadas por pequenos reflexos de luz solar, assumiam impressionante aura mágica. Emocionada, Alma apenas sorriu, enquanto, alheio a tudo, seu Valmir continuava suas histórias.

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